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2018: tudo indefinido, com quatro exceções

Por Rosângela Bittar

Os candidatos a presidente da República nas eleições de 2018 ainda estão na toca, reunindo forças, cevando uma base e um lastro. O PSDB e o PT terão candidatos próprios. Michel Temer será, no mínimo, um eleitor forte e o PMDB será disputado, pois terá a Presidência da República. E existe uma faixa intermediária no conjunto de forças políticas em partidos médios que podem oferecer o vice ou, se se virem excluídos, disputar a Presidência. É só o que há, e é bastante, de real neste momento em matéria de sucessão. Está cedo para se tentar definições, mas está na hora de perceber que os candidatos, assim como os sujeitos das boas orações, estão ocultos e trabalhando muito, tratando de arrumar, pelo menos, sua biografia, já que dinheiro para campanha ainda exige providências legais.

É o que acontece com Geraldo Alckmin, o governador de São Paulo, e o prefeito da capital, João Doria, ambos tucanos e formalmente aliados, criador e criatura. Não é segredo, Doria está fazendo gato e sapato de Alckmin.

Não há um tucano paulista, dos bem autênticos, que não tenha uma história para contar sobre o bombardeio do prefeito contra quem imagina ser o seu adversário interno. Os interlocutores estão saindo horrorizados com a má propaganda e a baixa perspectiva que se cria para Alckmin: Doria não perde oportunidade de dizer que vem aí uma bomba, uma delação irrespondível, que esse "negócio de cunhado" é difícil... Enquanto espalha perfídias, que podem se confirmar ou não, Doria se solta pelo Brasil, não fica em São Paulo, vai abrindo picadas para sua candidatura presidencial. Dois coelhos: explode Alckmin, pavimenta a sua estrada.

Doria admite deixar o PSDB, já negocia com o DEM

Se, por ventura, Alckmin sobreviver e a bomba com que o ameaça Doria for de São João, o governador consolidará sua candidatura, vez que está posto que o candidato do PSDB é Geraldo Alckmin, sem discussão. Alckmin também não está parado, propõe prévia este ano porque o favorece e derruba Doria, provocando-o a também se inscrever. Mas se não conseguir a legenda, pergunta-se: Doria fica no PSDB?

A resposta, hoje, a uma distância de oito meses do prazo para mudança de partido, é não. João Doria estaria em avançada negociação para transferir-se para o DEM, o ex-PFL e futuro Centro Democrático que namora o prefeito paulistano, em aproximação à luz do dia, caso não consiga ser o candidato do PSDB. Apesar das formais negativas da cúpula partidária, normal em época de pré-decisões.

Não se pode assegurar, ainda, como tudo é incerto, que o DEM vai fechar com Doria, ou se vai preferir Henrique Meirelles, de quem se aproxima também muito pelas teses da economia e das reformas. Ou se vai de Rodrigo Maia, também uma possibilidade, menor, porque pode esperar até para consolidar a envergadura política recentemente adquirida.

Na batida do lado contrário o PT escolheu seu candidato: será mesmo Fernando Haddad, se não for Lula, como parece que não é. A ver quem se habilita a seguir com o PT.

Para ser candidato, Alckmin terá que escolher um vice, e ao fazê-lo, vai deixar meia dúzia de excluídos. São muitas as forças intermediárias, todas com aspirações e nenhuma a dever importância, tamanho ou legitimidade à outra.

O centro está tumultuado. O PMDB será um eleitor forte, terá a Presidência da República. Vai apoiar quem? Há uma unanimidade entre os técnicos diante da constatação de que, por volta de junho do ano que vem, quando estiverem se definindo as candidaturas, a economia terá encontrado os trilhos tão citados por Michel Temer, e aí o presidente terá alternativas. Se não puder ajudar, pode atrapalhar, e muito.

Tem o PSB que, embora citado para ir às eleições na vice de Fernando Haddad, dificilmente se aliará ao PT. E o partido terá o governo de São Paulo, com a desincompatibilização de Alckmin, o que não é pouco numa campanha.

Alckmin vai dispensar Temer? Vai recusar a continuidade da parceria com o PSB que, na campanha presidencial terá ainda os governos de Brasília, de Pernambuco e da Paraíba?

O DEM também pode ter o presidente da República na campanha eleitoral se Michel Temer quiser sair para candidatar-se a algum cargo com o objetivo de manter o foro privilegiado. Conselhos nesse sentido já estão aparecendo e a contundente entrevista do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, exibindo-se iracundo à "Folha de S. Paulo", na segunda-feira, disparou os alarmes entre os amigos do presidente. Ali só ficou faltando a palavra concreta mas todas as entrelinhas das dezenas de linhas indicam que haverá pedido de prisão do presidente logo que deixar o cargo.

E no miolo ainda há o PSD, sigla tão difícil de definir que vem sempre acompanhada do nome do seu criador, Gilberto Kassab, parceiro nada desprezível que conta com bancada ampla, prefeitos e até governador.

Esses setores médios vão desejar algum protagonismo e, se não conseguirem a vice, lançarão candidato. O momento é de preparação de manifestos, identificação de base, elaboração de doutrina, arrumação de biografia avariada. Os candidatos reais não se mostrarão como tais agora, estão ocupados em fazer coisa mais importante que é cuidar da vida para tornar a candidatura possível.

É o estágio em que se encontra Geraldo Alckmin, embora tenha perdido parte de sua tranquilidade com a ventania do estilo Doria. Nem por isso, porém, está abalado o momento de decisões estratégicas para as definições de 2018.

Espelho

A eleição que acaba de ocorrer no Amazonas, em primeiro turno, é uma experiência educativa para os novos tempos. São dois candidatos da política tradicional, disputaram sempre eleições financiadas por métodos também tradicionais, e concorrem agora com restrições financeiras e de recursos de propaganda. O Tribunal Superior Eleitoral está atento e notou a importância que as redes sociais ganharam nesse modelo.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

E-mail: rosangela.bittar@valor.com.br