O que acontece com quem deixa a empresa logo antes da crise bater

Por Letícia Arcoverde | Valor

SÃO PAULO  -  Fazer parte do alto escalão de uma empresa em crise pode prejudicar a reputação do profissional no mercado de trabalho. Mas o que acontece com aqueles que conseguem se antecipar às turbulências e  abandonar o barco antes dos problemas se tornarem públicos, ou profissionais que deixam a organização assim que as irregularidades são reveladas?

De acordo com pesquisas de um professor australiano, os danos à carreira podem ser ainda maiores do que aqueles que escolhem ficar na empresa durante uma crise.

O estudo, publicado na edição mais recente da revista acadêmica americana "Journal of Accounting and Economics", usou dados de mais de mil empresas dos EUA que registraram cerca de 1.200 "eventos negativos" entre 1998 e 2008. Esses eventos incluem processos contra a companhia, a necessidade de fazer correções na publicação de resultados e quedas significativas nos valores dos dividendos.

Ying Dou, autor do estudo e professor de finanças da escola de negócios da Universidade Nacional da Austrália, analisou o comportamento dos conselheiros de administração dessas companhias no período. Ao todo, foram identificados 387 conselheiros que deixaram a empresa logo antes do evento se tornar público, 2.227 profissionais que saíram da companhia logo após a divulgação, e mais de 4 mil que ficaram no "board" da organização durante o período.

Controlando fatores como tamanho da empresa e experiência profissional, o pesquisador comparou a carreira desses conselheiros nos anos seguintes à crise na empresa e sua saída do colegiado. Os conselheiros que deixam a empresa pouco antes do evento negativo são acabam atuando em 10% menos cadeiras de conselhos nos anos seguintes à saída, na comparação com aqueles que ficam na companhia durante a crise.

Mais prejudicados ainda são aqueles conselheiros que deixam o "board" logo após os problemas se tornarem públicos - eles têm uma redução de quase 20% no número de cadeiras ocupadas na comparação com os conselheiros que ficam. Aqueles que saem também acabam ocupando menos cadeiras de presidência em comitês e se colocam em menos conselhos de empresas consideradas de prestígio.

O autor destaca que uma das razões para o efeito negativo maior entre aqueles que deixam a empresa logo após o evento é o fato de eles deixarem o "board" justamente porque são responsabilizados pelos problemas. Mas mesmo aqueles que tentam evitar esse efeito ao deixar a companhia antes do ocorrido acabam penalizados. "O mercado aparentemente é eficaz em responsabilizar profissionais posteriormente, mesmo quando eles tentam abandonar a empresa antes de períodos de dificuldade", diz Dou.

Já os que ficam na companhia durante as turbulências muitas vezes passam a ser vistos pelo mercado como mais experientes - e a sua capacidade de gerir a crise é eventualmente vista como útil para outros conselhos.