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Não somos tão confiáveis quanto achamos

Por Claudio Garcia

Em um conto, um escorpião pede a ajuda de um sapo para atravessar um rio. O sapo nega com medo de ser picado. O escorpião convence o sapo que não fará isso, já que se o fizer os dois morrerão no rio. O sapo concorda e leva o carona nas costas quando, de repente, este o pica. Assustado, o sapo pergunta por que ele fez isso e o escorpião responde que não poderia evitar, já que essa é a sua natureza.

Para mim esse conto ilustra de forma generalizada a interpretação das pessoas com quem converso sobre a nossa nação. Com as revelações de corrupção dos mais altos representantes do governo e de grandes empresas nacionais, que antes representavam o orgulho do potencial brasileiro para o mundo, muitos reagem ceticamente dizendo que isso é o que somos e que não vai mudar. Como o escorpião, faz parte da nossa natureza. Não dá para confiar.

Aparentemente temos um dos mais baixos índices de confiança do mundo. Pesquisa do World Value Survey com mais de 100 países apresenta o Brasil no fim da tabela entre os dez países com mais baixo índice de confiança interpessoal. Ao responderem a pergunta "você diria que é possível confiar na maioria das pessoas?" apenas 6,5% dos respondentes disseram que sim (a Argentina, por exemplo, tem um índice de 22,64,%, os Estados Unidos 35,9% e a Noruega 73,7%). A pesquisa foi realizada em 2014 (o que pode sugerir que o resultado é contextual) mas índices bem próximos foram encontrados em outras versões da pesquisa em 1993 e 2009, o que reforça a possibilidade da desconfiança ser parte inerente da nossa sociedade.

Muitas análises da situação atual não têm endereçado o custo das crises e revelações atuais para o estado da confiança em nosso país. Na maioria das vezes o tema é direcionado à nossa relação com instituições ou à criação de um ambiente de confiança para investidores estrangeiros.

Confiança é parte essencial do capital social de um país. E capital social implica em absorver produtivamente novos investimentos, em melhor relação de bem estar, em menos violência, entre outros. Muitas pesquisas, como a realizada pelos franceses Yann Algan, Pierre Cahuc, mostram que confiança não só têm alta correlação mais implica causalidade com desenvolvimento econômico, PIB per capita e menor desigualdade de renda.

Apesar dos inúmeros fatos mostrados nesses últimos anos, as revelações das últimas semanas indicam que a corrupção ainda está acontecendo entre grandes empresas e políticos, o que reforça que nossas mazelas estão consolidadas e reduz a esperança de mudança. Confiança é associada às pequenas coisas que fazemos consistentemente em um longo período de tempo, e não às grandes coisas que dizemos ou fazemos pontualmente.

Mas o grande risco dessa realidade é exteriorizar a culpa do problema. Um experimento realizado por Edward Glaeser, David Laibson, Jose Scheinkman e Christine Soutter sugere que a pergunta da pesquisa que citamos acima ("você diria que é possível confiar na maioria das pessoas?") na verdade não tem correlação com o quanto confiamos nos outros. Porém, o experimento sugere que existe correlação com o quanto somos confiáveis, ou seja, pessoas que dizem que não confiam nos outros tendem a não ser confiáveis. Isso significa, como cidadãos, que estamos mais para escorpião do que para sapo. Isso pode parecer forte, mas põe todos nós na fonte do problema.

Existe um grande papel nessa realidade para líderes de empresas. Segundo a Edelman Trust Barometer, desde 2011 a confiança em CEOs caiu 11 pontos percentuais. Há uma clara tendência de pressão social para que as empresas adotem modelos de negócio que tenham em sua essência um papel co-responsável para o desenvolvimento da sociedade em vez das tradicionais ações de responsabilidade social corporativas que são, muitas vezes, mitigadoras das práticas empresariais inadequadas dessas empresas.

A quantidade de interações com empregados, fornecedores, comunidades, políticos e consumidores, entre outros, põe as organizações em um papel central para criar práticas saudáveis e contribuir com a construção a longo prazo da confiança de uma sociedade. Os exemplos recentes devem aumentar a desconfiança da sociedade com empresas. Como líderes temos muito o que fazer se levamos o Brasil a sério.

Claudio Garcia é vice-presidente executivo de estratégia e desenvolvimento corporativo da consultoria LHH, baseado em Nova York